Showing posts with label Architecture. Show all posts
Showing posts with label Architecture. Show all posts

Barbie Dream House

Em Abril publiquei um post sobre a recente decisão da Mattel em criar uma Barbie arquitecta no seguimento da operação “I can be…” - pouco tempo depois a produtora de brinquedos norte-americana ter anunciado que a “carrer of the year 2011” seria, justamente, arquitectura, associando-se à AIA (American Institute of Architects) na promoção de um concurso chamado “Architect Barbie Dream House Competition”.


A ideia de uma casa para a Barbie não é certamente nova, já na década de 1960 havia a possibilidade de comprar uma verdadeira mansão ricamente mobilada e com todos os luxos para a boneca que, na altura, simbolizava a sociedade de consumo, a modernidade e a emancipação da mulher. Desta vez a Mattel promoveu o lançamento do concurso na tentativa de contrariar as notícias embaraçosas que, em Junho de 2011, tinham sido divulgadas pela organização não governamental Greenpeace.  No dia 7 os activistas desenrolaram da cobertura das instalações da Mattel na California enormes cartazes onde aparecia Ken de cara triste que declarava “I don’t date girls that are into deforestation”. A acusação da Greenpeace tinha a ver com o facto da Mattel ter comprado a materia-prima para as suas embalagens da companhia Asia Pulp and Paper (APP), do grupo Sinar Mas. Este grupo foi acusado, sempre pela Greenpeace, de ser o maior destruidor da floresta virgem da Indonésia. No seguimento destas acusações, as empresas Carrefour, Staples, Office Depot e Woolworths pararam de comprar o papel da APP.


Com uma manobra que pretendia ser moralista, ecologista e comercial ao mesmo tempo a Mattel promoveu um concurso baseado em valores contemporâneos tais como a diversão, a moda e a natureza, sem esquecer o conforto para uma vida moderna. No edital do concurso era pedido um projecto para uma “Barbie Dream House” com algumas caracteristícas específicas: “A sleek, smart home office is important for any doll. With more than 125 careers, I need a spacious office that can accommodate my hi-tech gadgets for meetings, client visits and presentations. I love to entertain so I need living and dining areas that are open and connected allowing for mingling and easy entertaining from one room to the other.
The kitchen should be functional and fabulous with top-of-the-line appliances—large countertops and lots of space to cook. I also love natural light in my kitchen so windows are critical. I am quite the chef you know! 
As the original “fashionista,” you can imagine how large my closet needs to be! I have unlimited fashions and accessories, so I need lots of shelving, shoe racks and a closet that can be easily organized - getting ready can’t be a chore every day.
My dream bathroom: a large, stylish space accessible from the master bedroom and other areas.
I love animals and I have as many as five pets (including a giraffe) around at any given time. A big backyard is very important so they can roam and play! (...)” enfim, não podia faltar mesmo nada.

Entre as trinta propostas que foram entregues, a Mattel elegeu as cinco que ficaram a disputar o primeiro lugar através de votação pública na qual participaram 8.470 entre adultos e crianças. Ganhou a dupla composta pelas arquitectas Ting Li e Maja Paklar com uma casa altamente ecológica. Na memória descritiva do projecto as autoras afirmavam que “Barbie is on a mission to set an example to be sustainable wherever she can. Her house proudly utilizes solar panels, operable shading devices, low flow bathroom fixtures, energy saving light fixtures, and efficient HVAC equipment. The house occupies minimum footprint as it cantilevers over a bluff, she landscapes her yard, roof and terraces for cooling and visual effects. In order to reduce CO2 emission, Barbie opts to ride her Pink Vespa around town instead, and if she needs to haul her shopping bags, Ken is never far behind in his convertible”. A casa chega a respeitar os padrões do USGBC, o U.S. Green Building Council.

A proposta vencedora
Esta iniciativa lembra, com outros protagonistas e noutro contexto, uma história que já tive oportunidade de contar neste blog e que aconteceu em 1983 com a revista Architectural Design quando esta resolveu lançar um concurso para uma casa de bonecas.

Apesar de não conhecer todas as outras propostas, não acho a vencedora particularmente interessante. Todavia tenho que admitir que, no contexto de uma "cultura Barbie", consegue despertar para alguns dos aspectos centrais da arquitectura. A criação de espaços e a sua adequabilidade ao programa, a articulação de vários compartimentos, a implantação no lote e, claro, a pegada energética da casa, são todas questões que são levantas e apontadas pelo projecto de Ting Li e Maja Paklar.

Duas proposta excluídas

E o que podemos pedir mais de um brinquedo se não o de despertar a curiosidade das crianças sobre alguma coisa? De pó-las a pensar de forma diferente sobre um objecto tão comuns e, aparentemente, tão banal como a casa?

Isto é o papel e a responsabilidade de um “architectural toy”.

Arthur Carrara e as construções magnéticas

Arthur Carrara nasceu em 1914 em Chicago, Illinois, filho de um imigrante italiano que trabalhava numa fábrica de argila que fornecia peças ornamentais para os edifícios projectados pelo famoso arquitecto norte-americano Louis Sullivan (1856-1924). Desde muito cedo Arthur demonstrou um particular interesse pela Arquitectura e, em 1931, visitou com a escola que frequentava a exposição de Frank Lloyd Wright e assistiu a sua famosa palestra  "To the Young Man in Architecture", proferida ao Art Institute of Chicago. Mais tarde, declarará que este foi um dos momentos mais marcantes e determinantes para a sua vida profissional.
Carrara começou os estudos em arquitectura e engenharia na Universidade do Illinois que o levará, em 1937, a obter aí a licenciatura. Após a conclusão da formação académica trabalhou algum tempo como desenhador no gabinete do arquitecto John van Bergen, um colaborador de Frank Lloyd Wright.

Durante a Segunda Guerra mundial Carrara serviu o Exercito norte-americano no Pacifico como topografo e foi encarregue de projectar alguns edifícios de apoio logístico na Austrália e nas Filipinas.
Em 1943, quando se encontrava na Austrália, o governo deste país encomendou-lhe o projecto do Café Borranical, em Melbourne. O projecto deste espaço, uma teahause, foi para Carrara a oportunidade para experimentar algumas das suas ideias sobre a aplicação de sistemas hidráulicos e magnéticos na construção de edifícios. A solução apresentava uma planta central que lembrava uma flor cujas “pétalas” eram plataformas móveis que, ao mexer, alteravam a forma do edifício e aumentavam a sua área de ocupação.

Em 1944, com a patente de Major do exército, foi convidado pela City Planning Commission, nas Filipinas, para conceber o projecto urbanístico de Manila e Cebu. Estas cidades foram bombardeadas durante a que ficou conhecida como a maior batalha urbana da Guerra do Pacifico. 95 % de Manila, que estava sob domínio Japonês, foi destruída entre 3 de Fevereiro e 3 de Março de 1945 durante uma batalha que foi comparada, pela sua selvajaria, à destruição de Varsóvia ou à batalha de Estalinegrado.

Em 1946, Carrara voltou para Chicago onde abriu um escritório. Chegou a fazer projectos para várias casas, edifícios para serviços, espaços expositivos e para alguns produtos industriais como móveis ou candeeiros. As crescentes encomendas levaram-no, por volta de 1965, a abrir outro escritório em Buffalo, no estado de New York. Sobretudo na década de 1950, o arquitecto projectou várias moradias, entre as quais, muitas casas de férias. Nos projectos reconhece-se a habilidade do autor em conseguir conjugar o estilo Prairie, de Frank Lloyd Wright, com as influências do movimento moderno e algumas experiências high-tech da época.
A ideia de utilizar o magnetismo na construção tinha surgido a Carrara ainda antes da guerra, quando havia hipotizado junções estruturais em edifícios metálicos que se podessem realizar com esse sistema. Todavia, dada a fraqueza dos magnetes disponíveis na altura, esta ideia nunca saiu do papel. Em finais de 1940 descobriu o Alnico, uma liga de Ferro, Alumínio, Níquel e Cobalto, além de outros metais em menor percentagem (o próprio nome é a junção dos principais elementos Al, Ni, Co), cuja formula tinha sido descoberto vinte anos antes para fins bélicos. Esta liga possui capacidades magnéticas de tal ordem que um imãn de Alnico consegue suportar 1000 vezes o seu próprio peso e Carrara viu nele um grande potencial para os seus projectos.

Não é portanto de estranhar que, em 1947, Carrara resolva projectar um brinquedo que conseguisse demonstrar o poder do magnetismo e as suas possibilidades para a arquitectura. Não tendo conseguido aplicar as suas teorias na arquitectura em escala real, resolveu aplicá-las  na pequena escala, num sistema de construções para crianças.

O Magnet Master foi desenvolvido em parceria com o irmão Reno e com o Walker Art Center em Minneapolis chegando a ser sugerido pelo Everyday Art Quarterly como um brinquedo para as crianças de todas as idades, licenciados e estudantes, inclusivé.
Acerca do Magnet Master o autor escreve no catalogo da exposição que lhe é dedicada em 1960 no Milwakee Art Center: “Magnet Master grew out of my experiments with the new found magnetic and electromagnetic metals. Every idea of man is first employed as a toy or in a toy. Every scientific principle was at first presented in a toy form. magnet Master grew out of a comprehensive study of man’s methods of fastening materials . . . joinery techniques. The uses inherent in Magnet Master for architecture and other fields are apparent. As a study method Magnet Master was first exhibited and manufactured with the tremendous encouragement and financial help of the Walker Art Center in Minneapolis, which deserves the credit or whatever popular acceptance this adventure has received. The unit shown here has been distributed around the world, it is hoped with some good effect. It has been expanded as an architectural concept for the first time in the Franklin Delano Roosevelt Memorial”.

Vendido numa caixa de cor amarelo limão, o Magnet Master, era composto por um conjunto de peças metálicas que se juntavam por encaixe ou por magnetismo. Era possível construir estruturas tridimensionais onde as ligações magnêticas davam uma extrema leveza e elegância às partes chegando a desmaterializar quase por completo o conjunto. Além disso, o facto de o brinquedo ser magnêtico permitia que as crianças juntassem, para o complementar, outras peças metálicas, como clips, molas ou alfinetes.
Não eram fornecidas instruções uma vez que, como dizia o panfleto publicitário do brinquedos, “children are naturally imaginative and will derive greater pleasure and benefit when left to their own images and devices”. Esta ideia estava na base de um artigo promocional da revista Look de Fevereiro de 1949 onde o pintor Max Weber se apresentava a brincar com o filho de onze anos Johnny com Magnet Master .
O brinquedo chegou a ser publicitado em vários museus e instituições educacionais; no quarto dos brinquedos da casa protótipo de Marcel Breuer construída no Moma de New York, na exposição de 1949, havia um Magnet Master.

Em 1960, Carrara participou no concurso para o memorial a Franklin Delano Roosevelt com uma proposta inspirada nas investigações que tinha desenvolvido para o projecto do Magnet Master: uma pirâmide com uma esfera suspensa num campo magnético.
Apesar de ter tido um forte apoio comercial e ter sido associado a alguns dos mais importantes autores da altura, o Magnet Master nunca chegou a ser um sucesso comercial. Ficou para a história como um verdadeiro paradigma entre os brinquedos de arquitectura.

Anne Tyng, Loius Kahn e os brinquedos

O frenesim tecnológico e científico que se viveu no pós-guerra europeu e norte-americano é bem testemunhado pelos meios de informação que, na altura, procuravam divulgar as inúmeras inovações que diariamente eram descobertas, inventadas ou produzidas. Entre as revistas, a Popular Mechanics Magazine era certamente uma das mais activas e, como diz o próprio nome, populares. Esta revista, cujo primeiro número é de 1902, já teve versões traduzidas em nove línguas e nos seus números podem encontrar-se artigos sobre os mais variados temas tratados de forma compreensível através de textos acessíveis e de imagens explicativas.

Uma das coisas mais divertidas é folhear números antigos e ver a ingenuidade com a qual eram aceites certas invenções e, entre estas, os brinquedos que eram pensados para as crianças. Já tive oportunidade de mostrar, por exemplo, algum dos jogos produzidos por Guilbert nos quais existiam substâncias radioactivas ou fortemente tóxicas. Noutros casos, havia quem se lembrasse de construir pequenos submarinos onde as crianças podiam entrar para navegar em pequenos rios ou lagos... ou ainda mini canhões perfeitamente funcionantes para mostrar aos filhos como funciona a artilharia.

Numa das minhas visitas aos números antigos da Popular Mechanics Magazine encontrei, no número de Agosto de 1950, um artigo sobre um projecto de um sistema de montagem que permitia construir ora brinquedos de grandes dimensões, ora peças de mobiliário para crianças.. Tratava-se de um conjunto de peças em controplacado recortadas, bastante engenhoso, com um sistema de encaixe extremamente simples, sem recorrer a parafusos ou porcas para a montagem. Entre as fotografias presentes no artigo havia uma da autora do projecto “make-it-and-brake-it”: Anne Tyng.

Este nome não me era completamente novo, não conseguia lembrar onde ou quando o teria ouvido, mas até as minha filhas de 7 anos sabem que com o Google já não existem secretos ou dúvidas...

Começou-se a fazer luz: Anne Griswold Tyng, nascida em Kuling, na província chinesa de Kiangsi, em 1920, é arquitecta e professora conhecida, entre outras coisas, pela sua luta pela emancipação da mulher no âmbito das artes. Anne sempre defendeu a importância da mulher passar de musa para heroína libertando, assim, o seu próprio potencial criativo.

Quarta filha de um missionário episcopal, em 1938 Anne aproveitou um dos regressos sabáticos da família aos Estado Unidos para ficar definitivamente neste pais. Após uma licenciatura no Radcliffe College, Anne Tyng foi, em 1942, uma das primeira mulheres a receber um Mestrado em Arquitectura pela Universidade de Harvard. Nesta faculdade chegou a ser aluna de Walter Gropius e Marcel Breuer.

Após a formação académica, Tyng começou a trabalhar no gabinete de Konrad Wachsmann, em Nova Iorque, na firma de design Van Doren, Nowland and Schladermundt e na Knoll Associates. Já o facto de ser uma mulher que aprendeu e trabalhou com profissionais e em escritórios deste calibre valeria a Anne Tyng um lugar de respeito na história da arquitectura moderna, mas o que a tornou mesmo famosa foi o que aconteceu depois de 1945.
 
Em 1945 Tyng mudou-se para Philadelphia e ingressou no escritório de Louis Kahn, que na altura ainda era sócio de Oscar Stonorov, onde participou em vários projectos, entre os quais o plano para Philadelphia (1946-52). Em 1947, Kahn desfez a sociedade com Storonov e a Tyng manteve-se no seu escritório onde ficou até 1964.  Durante este período participou em vários projectos de Kahn e, além disso, envolveu-se numa relação com este arquitecto da qual resultou uma filha, Alexandra. A “família” que Louis criou com Anne foi uma das três que este arquitecto foi criando e mantendo ao longo da sua vida; em 1947 Anne Tyng tinha 27 anos, era uma mulher bonita e inteligente e Kahn, como se veio a demonstrar mais tarde, nunca teve uma grande capacidade de resistência a estes argumentos...

A colaboração de Anne Tyng com Kahn é bem visível em projectos como a Yale University Art Gallery (1951-53), a Philadelphia City Tower (1952-57) ou o Trenton Bath House (1955-56); todas obras marcadas pelo rigor geométrico tanto no estudo tipológico como na composição arquitectónica ou nas soluções estruturais.

Sobre a relação entre Anne com Kahn poder-se-ia escrever muito mais, tanto um como outra eram pessoas especiais e do amor que os uniu, além de uma filha, ficaram as cartas que trocaram, entre 1953 e 1954, aquando Anne esteve em Roma, cidade onde nasceu Alexandra. Nesta obra, publicada por Anne Tyng em 1997, são recolhidas as 53 cartas que Kahn lhe escreveu, com uma frequência semanal, e onde se encontram, além das conversas privadas entre dois amantes, comentários sobre a situação política, sobre os colegas ou sobre a arquitectura em geral. Prefiro deixar ao belíssimo filme My Architect realizado por um dos filhos do arquitecto, Nathaniel Kahn, o retrato deste homem que morreu misteriosamente em 1974, completamente falido e sozinho.

Depois da saída do escritório de Kahn, Anne Tyng continuou a investigar a relação que existe entre a geometria e a arquitectura. Além disso foi produzindo muitos artigos sobre urbanismo e sobre a sua experiência profissional num campo dominado pelos homens. Em 1968 começou a ministrar cursos sobre a ordem geométrica e a escala humana na arquitectura, na Universidade de Pennsylvania, onde ficará até 1995.

Numa vida tão intensa, os brinquedos ficaram esquecidos e a autora, que ficou conhecida por outras obras, na altura ganhou uma certa notoriedade com eles. Se olharmos com alguma atenção ao artigo publicado pela Popular Mechanics e o relacionarmos com o contexto histórico, percebemos que os brinquedos eram, de facto, algo de muito inovador. Poder-se-á chegar a dizer que se encontram ao nível de outros brinquedos que lhe são contemporâneos como os do casal Eames, sobre os quais já escrevi, ou os de António Vitali, um designer de brinquedos suíço sobre o qual irei falar um dia destes. Feitos inteiramente em placas de contraplado recortado, possuem umas formas complexas de forma a servirem para, quando unidas, construir vários objectos muito diferentes.  Na altura o contraplacado era um material inovador; se quiséssemos fazer um paralelo com a actualidade poderíamos falar em kevlar ou em fibra de carbono. Era um material reservado à construção de edifícios ou móveis ou ainda, ao longo da Segunda Guerra Mundial, na construção de barcos ou de veículos para desembarque. Resistente mas flexível, leve mas duradouro aos elementos, o contraplacado era um dos materiais mais promissores da época; mesmo na decada de 1940 Charles Eames tinha começado a projectar e produzir as suas famosas cadeiras em contraplacado moldado.

Além da adopção do material, a ideia de que a criança possa mudar a sua envolvente e os seus objectos com extrema facilidade e rapidez é algo que, na altura, era extremamente inovador . Era inovador na medida em que se encontrava em sintonia com os movimentos filosóficos que, na altura, pregavam a necessidade de mudar os paradigmas de ensino. John Dewey (1859-1952), um filósofo norte-americano, foi um dos principais responsáveis pela introdução do Pragmatismo nas práticas educativas ao defender que a criança aprende sobretudo através da acção e não só através da observação ou do estudo. Neste sentido entregar à criança um objecto mutável, manipulável não era, de todo, algo trivial (o brinquedo “The Toy” de Charles Eames será produzido dez anos mais tarde). Além disso a complexidade geométrica das peças e das combinações possíveis demonstrava a vontade da autora em sensibilizar a criança para o conhecimento geométrico e compositivo através da brincadeira ou, em geral, da ocupação. Sentiu esta necessidade no duplo papel que tinha e que era, na altura, algo de muito raro: arquitecta e mãe.

Versão inglesa deste artigo.

Fontes:
http://www.philadelphiabuildings.org/pab/app/ar_display.cfm/21436
http://www.upenn.edu/gazette/0107/feature1_3.html
http://daddytypes.com/2009/10/13/holy_smokes_its_the_tyng_toy.php

Mais uma archistar: a Barbie architecta

Finalmente é oficial: a boneca Barbie, que apesar de ter 52 anos de idade continua linda, com um peito firme e sem um vestígio de celulite, terá, neste Outono, a sua versão arquitecta.
Óculos de massa, capacete, maqueta e rolo com desenhos técnicos são os acessórios que a Mattel achou mais pertinentes para uma arquitecta que, para a felicidade dos trolhas, visita as obras de saia curta e botins pretos. Os piropos não faltarão.

A história não é curta e, tão pouco, simples, pois é desde o ano 1959 que a Barbie foi construindo um currículo profissional impressionante com mais de 120 ocupações diferentes: começou por ser, entre outras coisas, bailarina, babysitter ou astronauta. A partir da década de 1970 ganhou novos papéis como cirurgiã, médica, embaixadora ou ainda ginasta ou paleontologista (os curiosos poderão encontrar uma lista completa das profissões e dos respectivos anos de lançamento na Internet).

Em 2001, a Mattel promoveu a operação “I can be…”, que lembra vagamente um famoso slogan eleitoral norte-americano, através da qual recolhe os votos e as ideias de milhões de adeptos da Barbie. Surgem novas profissões ou novas versões de profissões já existentes: motorista de autocarro, veterinária ou pediatra. A lista é extensa mas, em mais de cinquenta anos de vida profissional, a Barbie nunca tinha sido arquitecta.

Esta falha ainda existiria se não fosse o empenho de Despina Stratigakos, historiadora do Departamento de Arquitectura da Universidade de Nova Yorque e autora do galardoado livro “A Women's Berlin: Building the Modern City”. Em 2007 Stratigakos chega a organizar uma exposição com o título “Architect Barbie” onde são expostas várias bonecas que representam outras tantas variações sobre o tema profissional da arquitectura. A autora lamenta o facto de, apesar das mulheres representar em mais de 40% dos estudantes do curso de Arquitectura, as mesmas representam só 13% na vida profissional. No documento que acompanha a exposição, a Stratigakos lança um claro apelo: "As a scholar and educator deeply concerned with making architecture not only relevant to little girls, but also women relevant to architecture, I hope to persuade Mattel to reconsider the viability of Architect Barbie."
Mais tarde, em 2010, surge a oportunidade que Despina esperava: a Mattel promove outra edição da operação “I can be…” para que o público escolha mais uma profissão para a Barbie ( a 125ª). Para não perder esta oportunidade, a Stratigakos juntou-se a Kelly Hayes McAlonie, presidente do AIA (National Professional Association of Architects) em Nova Iorque e biografa de Louise Bethune (a primeira arquitecta norte-americana) para fazer uma campanha a nível planetário. Apesar de não terem conseguido que a Barbie arquitecta ganhasse (ganhou a engenheira informática), foram tantos os votos recolhidos  e os meios mobilizados que a Mattel pediu às duas que colaborassem na criação desta profissão.
Assim, em Fevereiro deste ano, durante a Feira do Brinquedo de Nova York (a mesma que serviu, em 1959, para lançar a boneca) a Mattel anunciou que no Outono de 2011, passados 52 anos desde a sua premeria versão, irá ser posta à venda a Barbie arquitecta.

Será o caso de dizer que o desemprego não poupa ninguém…

Era uma vez ... Joseph Maria Olbrich e a pequena princesa Isabel

Era uma vez, mais precisamente em 1902, o Grão-Duque austríaco Ernesto Luís I de Hesse, irmão mais velho de Alexandra Feodorovna, última czarina de Rússia e, ao que consta, mulher de invulgar beleza. Ernie, assim o chamavam os amigos, era um homem muito poderoso, teve uma intensa e activa carreira militar e estabeleceu ligações e vários títulos através dos seus dois casamentos: o primeiro com a coroa inglesa e o segundo com a russa. 

Apesar de ter sido um dos reinantes europeus com mais títulos, o Grão-Duque viveu uma vida reservada e dedicada à família, longe dos grandes eventos que, na altura, atravessavam os países da Europa. Apesar de querer levar uma vida calma, quase burguesa, Ernie teve uma existência assombrada pelas inúmeras mortes que aconteceram à sua volta desde os dois anos de idade quando assistiu, em 1873, à morte violenta de seu irmão Ernesto, então com 5 anos, que caiu de uma janela sofrendo uma lesão cerebral insarável por causa da hemofilia (uma doença genética frequente nas casas das monarquias europeias). Desde então a morte visitou Ernesto com uma frequência terrível, e este ficou com o pavor de vir um dia a morrer na solidão. A vida deste homem foi de tal ordem trágica que há quem fale em “maldição de Hesse”.

Talvez tenha sido por causa desta profunda tristeza que o acompanhou e da qual não se conseguiu livrar até ao fim da vida que Ernie manteve sempre uma conduta política prudente em que o único âmbito em que se tornou realmente activo foi o das artes. O próprio chegou a escrever poemas, peças de teatro e composições musicais e, em 1901, fundou a Colónia de Artistas de Darmstadt, onde convidou várias celebridades vindas de toda a Europa par dar aulas ou, mais simplesmente, para participar num projecto cultural que ainda existe. Pois apesar de já não ter a importância política de outrora, Darmstadt conserva ainda hoje a sua fama de cidade universitária e de cultura graças a esta herança. Logo em 1901, a Colónia inaugurou a primeira exibição com o título “Ein Dokument deutscher Kunst” (um documento da arte alemã). Apesar de ter sido desastroso de um ponto de vista económico, pois foram gastas enormes quantias de dinheiro para construir edifícios e para patrocinar os artistas que participaram sem ter tido nenhum tipo de retorno, este evento deixou para a posteridade uma serie de belíssimos exemplos de arquitectura que ainda hoje podem ser visitados em Darmstadt. 

Uma das personalidades que o Grão-Duque convidou foi o arquitecto austríaco Joseph Maria Olbrich (1867 - 1908), uma das figuras mais importantes da Secessão Vienense juntamente com Gustav Klimt, Josef Hoffmann e Koloman Moser. Entre outras obras, Olbrich projectou, entre 1897 e 1898, um dos edifícios mais enigmáticos do princípio do século XX:  o edifício de exposições da Secessão em Viena. Este movimento artístico, que surgiu em finais do século XIX e se manteve nas primeiras décadas do século XX, representou mais uma entre as diferentes formas europeias de modernidade. Marcada por uma vontade de autonomia artística juntamente com uma necessidade de ruptura com o passado, a Secessão tinha, num primeiro tempo, características herdadas da Arte Nova chegando, mais tarde, a ganhar uma aproximação com as linguagens e as formas do Movimento Moderno. 

Olbrich projectou várias das casas que foram construídas para a exposição de 1901 e que serviram como galerias de arte para expor as obras os artistas plásticos. O Grão-Duque Ernesto tinha Olbrich de tal forma em consideração que quando casou pela segunda vez com a Princesa Leonor de Solms-Hohensolms-Lich, pediu-lhe para projectar a que ficou conhecida como a “torre do casamento” em Darmstadt. Uma torre em tijolo cujo telhado lembra os cincos dedos de uma mão estendida para o céu.
A torre foi o segundo encargo directo que Ernie deu a Olbrich. O primeiro foi em 1902, quando o Grão-Duque ainda estava casado com a Grá-duquesa Vitória Melita de Saxe-Coburgo-Gota com a qual tinha tido uma filha, Isabel, em 1895, e um filho que nasceu morto, em 1901. Ernie tinha uma verdadeira devoção pela sua filha Isabel; ainda antes dela começar a falar, o Grão-Duque estava convencido que era a única pessoa a compreender o que ela dizia. A história reza que, quando a criança tinha 6 meses, o pai perguntou-lhe qual deveriam ser as cores do seu novo quarto. Quando lhe mostrou um tecido lilás Isabel soltou um gritinho que foi interpretado pelo pai como uma escolha e foi logo ordenado que o quarto da criança fosse decorado em tons de lilás. 

Em 1901 os pais da então pequena Isabel divorciam-se e a mãe mudou-se para Coburgo onde foi morar com o novo marido, o Grão-Duque Cyril Vladimirovich da Rússia, com o qual já mantinha uma relação amorosa antes do divórcio. A Grã-duquesa Vitória não tinha muita paciência para a criança e esta ficava muitas vezes entregue às amas chegando a deixar de querer viajar para Coburgo. Nas suas memórias o pai lembra as dificuldades que tinha para convencer a filha a ir ter com a mãe contando que antes de a entregar encontrava-a a chorar escondida atrás do sofá.
Em Dezembro de 1901 o tribunal de Hesse concedeu finalmente o divórcio ao casal permitindo que, quatro anos mais tarde, Ernie voltasse a casar com a Princesa Leonor de Solms-Hohensolms-Lich com a qual teve dois filhos. Mesmo isto não o livrou das acusações da anterior mulher, a Grã-duquesa Vitória, de ter sido um marido ausente por causa dos frequentes casos homossexuais que tinham arruinado a relação. 


No dia 11 de Março de 1902 Isabel fez 7 anos e o pai pediu a Olbrich que desenhasse uma casa no jardim que fosse só dela. O local escolhido era o jardim do castelo de Wolfsgarten em Langen, uma pequena cidade entre Frankfurt e Darmstadt. O arquitecto, que na altura tinha 36 anos e não tinha filhos, projectou uma casinha à escala da criança com o mesmo empenho que teria tido em qualquer outro projecto de grande envergadura.
A casa, em perfeito estilo arte-nova, tinha uma sala e dois quartos. Continha tudo o que podia ser necessário: uma cozinha com fogão a lenha, móveis em escala reduzida, cortinados, louça e um pequeno jardim vedado à sua volta com 75 pombos de bronze a enfeitá-lo. O pé-direito interior era de 1,90 metros e no frontão aparece gravada a ouro a letra E, inicial do nome da princesa por debaixo de uma coroa, também dourada (Isabel, em alemão, é Elizabeth). No telhado uma coroa simbolizava a realeza e no frontão por cima da entrada podia-se ler “Era uma vez... assim começa o conto de fadas (...) E esta casinha é só minha, construída só para mim em 1902


Olbrich desenhou também a mobília, a decoração e os papeis de parede onde também se encontra a letra E no interior de um padrão geométrico tipicamente arte-nova. Em 1996 a casinha foi remodelada completamente, sendo hoje a única obra de Olbrich que se encontra num estado rigorosamente idêntico àquele que tinha quando foi construída.
Aos adultos era proibido entrar e Isabel passava os seus dias rodeada pelos seus animais de estimação com as governantas e as amas que esperavam agachadas, cá fora, que a princesa acabasse as suas brincadeiras. 

Apesar de ter recebido uma prenda digna de uma princesa e que ainda hoje existe, a pequena Isabel não escapou à maldição de Hesse. No dia 6 de Novembro de 1903, com 8 anos de idade e a plena consciência do que estava a acontecer, morreu de febre tifóide. O corpo foi colocado num caixão de prata e o pai exigiu um funeral onde tudo, desde os cavalos até às flores, tinha que ser branco.

O ano seguinte à morte da pequena Isabel a sua governanta, a Baronesa Georgina Freiin von Rotsmann escreveu um livro para crianças em memória da princesa. Escreveu a história e pediu a Olbrich para desenhar as ilustrações. O título do livro era: "Era uma vez....". No Leopold Museum, em Viena, esteve patente, até finais de Setembro de 2010, uma exposição com o título "Joseph Maria Olbrich - Art Nouveau and Secession" onde estiveram expostas as litografias que serviram para imprimir as ilustrações do livro e onde é fácil reconhecer a casinha que o arquitecto desenhou para a princesa Isabel.


Olbrich durou só mais 4 anos após os quais morreu de leucemia. 

A princesa Vitória, mãe da pequena Isabel, morreu em 1936 no seguimento de um ataque cardíaco provocado pela notícia de que o marido, o Grão-duque Cyril Vladimirovich da Rússia, passava a vida a viajar para Paris onde tinha várias amantes. 

A princesa Leonor, segunda mulher do Grão-Duque Ernesto, morreu no ano seguinte num desastre de avião quando ia participar no casamento do filho mais novo, Luís de Hesse. No mesmo acidente morreram o seu filho mais velho, Jorge, a sua nora Cecília da Grécia e Dinamarca, então grávida de 8 meses, e os seus dois netos, Luís e Alexandre. O avião no qual viajavam embateu contra uma chaminé de uma fábrica perto de Oostende na Bélgica e quem acorreu logo após o acidente contou que havia nos destroços os restos mortais de um feto indicando que os trabalhos de parto tinham começado mesmo antes do acidente.

Em 1918, em pela Primeira Guerra Mundial, foi proposto ao Grão-Duque Ernesto abdicar do trono, mas ele recusou. Mais tarde, ao longo do mesmo ano, Darmstadt e Hesse ficaram incluídas na República de Weimar e o título de Grão-Duque foi abolido. Assim Ernie sobreviveu a todos os protagonistas desta história e morreu sozinho, em 1937, com a idade de 69 anos. 

Algumas fontes:
http://www.architekt-giel.de/
http://mainzauber.de/blog10/
http://romanov.blogs.sapo.pt/