V&A Museum of Childhood em Londres

Para quem goste de brinquedos e esteja a programar uma visita a Londres aconselho agendar uma ida ao V&A Museum of Childhood (Cambridge Heath Road London E2 9PA).
Alguns anos atrás estive no de Sintra, em Fevereiro no de Nuremberga e tenho que dizer que o de Londres é, entre estes, o museu mais interessante e variado. Encontrei alguns brinquedos antigos verdadeiramente fantásticos como caixas originais de construções ANKER ou uma casa de bonecas de 1930 produzida pela Lines Brothers (o maior produtor de brinquedos inglês do século XIX) com linhas modernas que só tinha tido oportunidade de ver em livro. Mas também voltei ao meu passado através de uma excelente selecção de brinquedos da minha geração como pistas de carros, jogos electrónicos (típicos da década de 80) ou ainda uma consola de jogos Atari.

Esta visita, que tinha planeado antes da partida, permitiu aprofundar um pouco o tema dos museus de brinquedos e a coisa resulta ser mais complexa, e por isso interessante, e do que parece. A este propósito encontrei um interessantíssimo artigo que trata, justamente, do problema do enquadramento disciplinar, ou histórico, dado aos brinquedos (Anthony Burton. 1997. Design History and the History of Toys: Definig a Discipline for Bethnal Green Museum of Childhood. Journal of Design History Vol. 10 nº 1). O problema é, mais ou menos, o seguinte: na classificação clássica dos museus (pintura, escultura, artes gráficas, têxteis, produção industrial, etc…) onde ficam os brinquedos? Pois o que não tem categoria é tralha e não merece ser guardado e, tão pouco, conservado e exposto.

O artigo conta muito bem as dificuldades que tiveram os sucessivos directores do Victoria & Albert Museum (do qual o Museum of Childhood faz parte) em encontrar critérios tanto para defender a criação e manutenção da colecção de brinquedos como, e sobretudo, para separar os que mereciam ser expostos dos que nem sequer tinham que ser aceite, mesmo que dados.
O resultado deste esforço está, de facto, à vista. Quem conhece o Museu do Brinquedo de Sintra, por exemplo, não poderá deixar de notar que este, apesar de ter uma colecção, notável mantém o cunho do seu criador, João Arbués Moreira. Também o de Nuremberga, que visitei em Fevereiro, está claramente fechado em torno de uma colecção com evidentes limites cronológicos e geográficos.
O artigo citado tenta esta leitura e reconhece cruzamentos entre a história do brinquedo e a etnografia, a psicologia, a história económica ou a sociologia.
De facto já tivemos oportunidade de ver, nos artigos anteriores, a ligação que existe, por exemplo, entre os avanços da pedagogia e o desenvolvimento dos brinquedos ou ainda entre certos brinquedos e o enquadramento cultural no qual tiveram sucesso. Mas poderíamos também citar os jogos electrónicos e a Guerra Fria, a Barbie e o papel da mulher ns anos 60 nos EUA ou ainda a forma como a produção de brinquedos segue a industria automobilística, a moda ou a música.
Em suma, os brinquedos fazem parte daqueles objectos que se inserem, que contaminam e que são contaminados por uma cultura material que caracteriza um período histórico, um país, uma cidade ou, em última análise, mesmo uma pessoa. Visitar um museu como o de Londres é visitar uma parte de história que nos pertence um pouco a todos e ter a oportunidade de reconstruir um pedaço deste passado comum.

Gosto, então, tentar adivinhar: qual, entre os brinquedos das minhas filhas, mereceria ficar num museu?

4ª parte – o regresso aos brinquedos

Vamos voltar ao segundo filho de Frank Lloyd Wright, John. Este frequenta a universidade de Wisconsin mas não chega a acabar o curso. Mais tarde frequentará também o Instituto de Arte de Chicago mas as suas verdadeiras habilidades arquitectónicas serão desenvolvidas no escritório do pai em Oak Park. Ficou um arquitecto pouco conhecido tanto pela forte sombra do pai como porque, em 1939, um incêndio destruiu todo o material do arquivo do seu gabinete de arquitectura.

Em 1912 segue o seu irmão mais velho Frank para São Diego, onde ingressa no escritório de Harrison Albright como responsável pelo projecto do Golden West Hotel em San Diego, um dos primeiros edifícios em betão armado. A sua primeira encomenda foi a Wood House (1912) em Escondido, Califórnia, que foi uma clara variação das Prairie House do pai.

Desde 1913 até 1919, John trabalhou com o pai que acompanhou, varias vezes, nas suas viagens ao Japão (a obra do Hotel de Tóquio acabou em 1923). A história não oficial quer que em Tóquio John tenha visto a execução do sistema de fundações anti-sísmicas projectadas pelo pai e tenha ficado impressionado. A história oficial quer que as fundações do Hotel não eram nada de especial tanto é que o grande sismo do Kanto, no dia 1 de Setembro de 1923, destruiu grande partes do edifício, contrariamente ao que tinha sido propagandeado pelo próprio Frank Lloyd Wright. A verdade é que quando John volta para Chicago em 1920, enquanto trabalhava no escritório de Schmidt, Garden & Martin, regista a patente de um projecto no qual estava empenhado desde 1916 e que se tornará um dos brinquedos mais famosos dos EUA: os Lincoln Bricks. Seguiram-se os Lincoln Logs, os Timber Toys, e, finalmente, os Wright Blocks.

Os Lincoln Bricks eram pequenos blocos de madeira que se podiam juntar com cola (fornecida numa pequena bisnaga). Também eram fornecidas pequenas janelas em madeira, portas e outros elementos decorativos para construir pequenos edifícios. Uma vez acabado, querendo, podia-se colocar o modelo em água de forma a dissolver a cola e soltar os blocos para recomeçar. Os Lincoln Brick, apesar de serem um sistema aberto que ainda hoje encontra muitas copias em diferentes materiais, não tiveram o mesmo sucesso de outro sistema também criado por John Lloyd Wright que ainda hoje se encontra em produção, os Lincoln Logs.

Os Lincoln Logs era um sistema de construções em madeira constituído por pequenos toros de secção circular com um encaixe nas extremidades com os quais se podia facilmente construir cabanas, casas, castelos ou outros edifícios. Também os Lincoln Logs eram vendidos com acessórios como janelas, portas ou estruturas para telhados e seguiam o mesmo processo construtivo das casas em madeira típicas das florestas dos EUA chegando a serem divulgados pelo próprio John como sendo o reflexo do "the spirit of America". Foi justamente esta semelhança que permitiu a este brinquedo de se tornar logo num grande sucesso de vendas. Mais tarde, como aconteceu com muitos brinquedos norte-americanos, passada a Segunda Guerra Mundial, as vendas tiveram outro incremento por causa do Bay-boom. O conjunto vinha com as instruções para a construção da Cabana do Tio Tom e da Cabana de Abram Lincoln, tinha caixas de dois tamanhos que eram vendidas por 2 ou 3 dólares cada. Alguém considera os Lincoln Logs copias modificadas de um brinquedo que já se encontrava no mercado desde o 1866, Log Cabin Playhouse de Joel Ellis. Até pode ser verdade uma vez que é provável que John tenha brincado com estas construções equanto criança, por outro lado não se pode negar que os Lincoln Logs foram objecto de um projecto extremamente atento e lançado através de um complexo discurso propagandista de um determinado estilo de vida que lhe garantiram o sucesso.
O conjunto tornou-se extremamente popular porque os pais permitiam que os filhos brincassem com algo que, além de ter um grande poder simbólico no que respeita o nacionalismo norte-americano, representava um ideal de vida que na altura era desejado por muitos: uma cabana ao ar livre para fugir das cada vez mais populadas e poluídas cidades. Neste sentido o sucesso dos Lincoln Logs foi resultado de um brinquedo certo na altura certa. Segundo fontes não oficiais o nome do brinquedo (Lincoln) não é um tributo a Abram Lincoln mas antes a seu pai: Frank Lloyd Wright nasceu como Frank Lincoln Wright mas mudou o seu nome quando da separação dos seus pais. Todavia parece pouco certo uma vez que na própria embalagem original era impresso um retrato de Abram Lincoln (1809-1865) que era, na altura em que o brinquedo era comercializado, uma personagem histórica muito conhecida.
Não sabemos quando mas sabemos que foi por 800$ que John Lloyd Wright vendeu a patente dos Lincoln Logs a Playskool, que actualmente faz parte do grande grupo multinacional Hasbro.

Em 1949 John regista uma versão de construções, que chegará a por a venda em 1950, a qual dará o nome de Wright Blocks. Esta era uma versão actualizada de um sistema de construções que já tinha patenteado em 1933 mas que ainda não tinham sido aperfeiçoados. Os blocos, sempre em madeira, eram de formas rectas e eram vendidos em caixas, chamadas Nº 1 e Nº2, com respectivamente 36 e 70 peças cada uma com ligeiras diferenças nas formas e nas madeiras utilizadas. Alguns conjuntos eram feitos em madeira natural enquanto outros eram pintados com aguarelas. Os Wright Block tinham um desenho mais moderno e abstracto em relação aos Lincoln Logs e, sem fazer referência à tradição, podiam ser utilizados para construir estruturas mais leves e mais abertas. Apesar disso nunca chegara ao sucesso dos seus antecessores e nunca se tornaram num sucesso de vendas encontrando-se, hoje em dia, só na posse de alguns coleccionadores (as imagens dos Wright Blocks são de a uma bisneta de Frances Lloyd Wrigth, mulher de John Lloyd Wright).

Finalmente, em meados de 1950 John desenvolve o protótipo para outro sistema de construções, o Timbre Toy. Este era o mais ambicioso dos seus conjuntos e incluía dezassete formas diferentes com encaixes de forma a servir como elementos para pavimento ou para parede. As peças eram vendidas numa caixa de madeira perfeitamente organizada e com rodas. Como demonstração da versatilidade do sistema Wright construiu e fotografou uma enorme variedade de torres, pontes, casas e até catedrais feitas com os Timbre Toy. Apesar disso nunca chegaram a ser produzidos e comercializados tendo ficado no estado de protótipos.

John Lloyd Wrigth morreu no dia 20 de Dezembro de 1972.

3ª parte - A saga dos Wright

Não vale a pena, aqui e agora, contar a longa, rica e complexa história de Frank Lloyd Wright, até porque não é propriamente isto que interessa. O que interessa é que este grande arquitecto teve uma certa propensão, capacidade e facilidade para mudar de mulher, nem sempre de forma legítima, e de fazer filhos, também nem sempre de forma legítima.

Frank Lloyd Wright casou três vezes: a primeira com Catherine "Kitty" (Tobin) Wright (1871–1959). Socialite e artista empenhada em causas sociais. Casaram em Junho de 1889 e divorciaram em Novembro de 1922. A segunda vez foi com a artista Maude "Miriam" (Noel) Wright (1869–1930). Casaram em Novembro de 1923 e divorciaram em Agosto de 1927. A terceira e última vez casou com a bailarina e escritora Olga Ivanovna "Olgivanna" (Lazovich Milanoff) Lloyd Wright (1897–1985). Casaram em Agosto de 1928 e viveram junto até a morte de Frank, em 1959.

Da relação com Catherine nasceram seis filhos, quatro rapazes e duas raparigas. O grande número de filhos e as capacidades de Catherine em educar crianças fizeram que cedo outras famílias do bairro entregassem os próprios filhos aos seus cuidados obrigando, em 1895, Frank a adicionar à casa de Oak Park (casa e escritório) uma sala de jogos de grandes dimensões. A sala estava sempre cheia de brinquedos e de construções e mais tarde, quando ficou concluída a escadaria para a varanda em 1898, as crianças tinham possibilidade de ter acesso ao escritório de arquitectura do pai.

Os 33 anos de casamentos com Catherine permitiram uma certa estabilidade e continuidade na educação dos seis filhos; mas também tiveram algumas consequências no que respeitas as inclinações profissionais da família, vejam:

O primogénito, Frank Lloyd Wright Jr. (1890-1978), mais conhecido como Lloyd Wright, foi um arquitecto paisagista que trabalhou na zona de Los Angeles. O seu filho (neto de Frank Lloyd Wright, é actualmente um arquitecto de Malibu, Califórnia, onde projectou várias edifícios públicos e privados.

O segundo filho, John Lloyd Wright (1892-1972), também arquitecto, teve muita obra construída na zona de San Diego, California. A filha de John, Elizabeth Wright Ingraham, é uma arquitecta em Colorado Springs. Elizabeth, por sua vez, é mãe de Christine, uma designer de interiores em Connecticut e de Catherine, professora de arquitectura ao Pratt Institute, em New York e autora de vários livros de arquitectura.

A actriz Anne Baxter (1923-1985), que chegou a ganhar um Óscar ao lado de Tyrone Power em 1946 como actriz principal no filme “O fio da navalha”, era neta de Wright. Anne Baxter era a filha de Catherine Baxter, uma filha nascida no primeiro casamento de Wright. A filha de Anne, Melissa Galt (bisneta de Wright), reaproximou-se a arquitectura e actualmente vive e trabalha em Atlanta como design de interiores.

A filha adoptiva Sveltlana (filha de Olgivanna e do arquitecto russo Vladimar Hinzenberg) e o seu filho Daniel morreram num acidente de automóvel em 1946. O seu viúvo era William Wesley Peters (1912-1991). Arquitecto e engenheiro, William trabalhou em vários projectos com Frank Lloyd Wright chegando a ser responsável pelos projectos de estruturas do Museu Guggenheim e dos Laboratórios Johnson Wax, entre outros. William foi, mais tarde, casado por pouco tempo com Svetlana Alliluyeva, a filha de Joseph Stalin . William Peters foi o presidente da Frank Lloyd Wright Foundation desde 1985 até 1991.

Finalmente um bisneto de Wright, S. Lloyd Natof, actualmente vive e trabalha em Chicago como carpinteiro especializado em projecto e produção de móveis por medida em madeira. Uma visita ao site dele não deixa dúvidas acerca das suas origens artísticas.

2ª parte - A Exposição Universal de 1876

No dia 10 de Maio de 1876, abre, em Filadélfia, Pensilvânia, a primeira Exposição Mundial dos EUA, para comemorar o centenário da assinatura da declaração de independência que aconteceu em 1776, também em Filadélfia.

Oficialmente chamada “International Exhibition of Arts, Manufactures and Products of the Soil and Mine”, a exposição era absolutamente gloriosa e contou com nove milhões de visitantes (quando a população dos EUA era de 46 milhões). Foram construídos mais de 200 edifícios novos no interior de um recinto que media mais de quatro quilómetros de comprimento. No interior dos edifícios os visitantes podiam ver enormes máquinas a vapor em funcionamento, animais exóticos e objectos vindos de todo o mundo (participaram 44 países). Juntamente com uma cerebração do poder científico e industrial, um mundo já globalizado mostrava-se e deixava-se tocar no seu esplendor (na feira foram vendidas, pela primeira vez, bananas. Embrulhadas em papel de alumínio, eram consideradas um tratamento exótico). Para ter uma ideia, baste pensar que o edifício principal, uma elegante estrutura em ferro e vidro, tinha 580 metros de cumprimento e cobria uma área de 81.000 metros quadrados.

No recinto da feira tinham sido instaladas, entre as outras, duas exposições que resultaram, no que interessa para a nossa história, extremamente importantes. Mais especificamente dois sistemas educativos que, por razões diferentes, passaram a história.

O primeiro é o que ficou conhecido como sistema russo ou método sequencial era fruto das teorias educativas de Viktor Karlovich Della-Vos (1829-1890). Físico, matemático, engenheiro mecânico, professor de mecânica na Academia Petrovsky (1864), da academia imperial técnica de Moscovo (1867), Della-Vos defendia a importância da inclusão de um treino manual, com aumento progressivo de dificuldade, no ensino. Desta forma, perfeitamente integrado no espírito da época e, sobretudo, da feira de 1876, defendia a forma através da qual a escola deveria preparar os estudantes para a futura era industrial.

O que aconteceu foi que entre os nove milhões de visitantes da feira estavam três pessoas especiais. Uma era Calvin Woodward da Washington University, outra era John D. Runkle, presidente (entre 1879 e 1879) do recentemente aberto MIT (acerca da terceira irei falam mais adiante). Tanto Woodward como Runkle ficaram impressionados com a pedagogia de Della-Vos e, ao voltar para casa, adoptaram os seus perceptos nas respectivas universidades. É possível afirmar que Della-Vos pode ser considerado o compadre do ensino técnico e das artes manuais em todo o mundo.

A outra exibição presente na feira provavelmente não estava muito em sintonia com o sistema russo, mas provocou um conjunto de eventos que, entre outras coisas, deixaram uma profunda marca na historia da arquitectura. Junto ao Pavilhão da Mulher, foi construído um Kindergarten Cottage. Criado pela Froebel Society of Boston no Cottage uma professora treinada, Ruth Burritt, ensinava dezoito crianças do orfanato de Pensilvânia três dias por semana. Burritt explicou os métodos de Fröbel a centenas de visitantes e às crianças que estavam com eles: “uma simples rotina de jardim-de-infância, brincar, cantar, jogos de movimento e manipulação dos brinquedos de Fröbel”. O espectáculo, que era substancialmente um dia passado num jardim de infância com pausa para almoço, estava sempre, sistematicamente, lotado. Mesmo alguns visitantes mais ligados à indústria ou às obras, ficavam atraídos pela suavidade e doçura do espectáculo.

Juntamente com o Kindergarten Cottage havia na feira um stand da Milton Bradley Company. Esta firma produzia e vendia vários brinquedos infantis, material didáctico além de cópias dos conjuntos de prendas de Fröbel. Desta forma não só era explicado o processo do jardim-de-infância e enunciada a teoria subjacente, mas também era possível aos visitantes comprar os brinquedos para experimentar o método Fröbel em casa, com os próprios filhos. Esta combinação, apesar de ter evidentes fins comerciais, apontava para um novo paradigma educativo onde o lugar e o tempo da aprendizagem e do desenvolvimento da criança não se limitam aos infantários ou a escolas mas são também as casas e os tempos livres com a família e com os amigos numa actividade que era simultaneamente lúdica e educativa.

A terceira pessoa que visitou a exposição, e que interessa para a nossa história, chamava-se Anna Lloyd Jones (1838-1923). Era uma educadora de infância casada com William Carey Wright, um professor de música, advogado ocasional e político itinerante. Educadora já experiente, Anna ficou de tal maneira interessada nas demonstrações feitas no Kindergarten Cottage que, quando voltou para Boston, comprou logo um conjunto de prendas de Fröbel. Não sabemos se eram peças originais ou cópias da Milton Bradley, o que sabemos é que o conjunto destinava-se a seu filho Frank que na altura tinha nove anos.

Para quem ainda não tenha percebido, o pequeno Frank, era Frank Lloyd Wright (1867-1959), a criança que se virá a tornar, mais tarde, num dos arquitectos mais famosos e influentes do século XX. Em 1943, na sua autobiografia Wright escreverá que: “fui trabalhar com Adler e Sullivan com os meios, ou com as armas, da educação do Kindergarten de Fröbel que a minha mãe me tinha dado quando era criança. (...) a minha mãe adoptou o ensino de Fröbel de não permitir às crianças o desenho ao vivo das fortuitas aparências da natureza até estes não controlar por completo as formas típicas que as aparências escondem. Na mente das crianças tinham que se manifestar, antes de qualquer outra coisa, os elementos geométricos universais”. O que consta também, mesmo que em jeito de mito, é que a mãe de Frank forrava as paredes do seu quarto com imagens de catedrais e de outros edifícios para ajudar a educação do filho para a Arquitectura.

Se é mito ou verdade não sabemos ao certo, o que sabemos ao certo é que Anna conseguiu criar um grande arquitecto.

1ª parte - Friedrich Fröbel (1782–1852)

Esta história começa em Oberweißbach, uma pequena cidade alemã no distrito de Turíngia, Alemanha, onde, no dia 21 de Abril de 1782, nasce Friedrich Wilhelm August Fröbel, sexto filho do pastor Johann Jakob Fröbel.

No verão de 1797, com 15 anos de idade, Friedrich Fröbel muda-se para Hirschberg, uma pequena cidade na fronteira com a Baviera, onde aprende as artes da gestão florestal, da agrimensura, juntamente com a geometria.
Já com algumas competências e conhecimentos na área do desenho e do cálculo, em 1804, dois anos depois da morte do pai, Friedrich decide tornar-se num arquitecto e, com este designo, se inscreve no curso de arquitectura em Frankfurt. Durante os estudos de arquitectura um professor de desenho, que devia ter algum bom senso, convence Friedrich a mudar para a área do ensino (apesar de ter sido breve, a passagem pela arquitectura, juntamente com as experiências anteriores, deixará no jovem Fröbel a sensibilidade pela composição geométrica e pelo desenho que o ajudarão, mais de vinte anos depois, a criar os seus famosos brinquedos).

Decidido a passar pelo ensino, Fröbel vai para Yverdon-les-Bains, Suíça onde se encontra com uma das figuras mais marcantes da sua formação: o pedagogo suíço Johann Heinrich Pestalozzi. A instituição de Pestalozzi era, para a altura, extremamente inovativa; baseava-se no princípio de que todas as faculdades do homem se encontram em estado embrionário nas crianças. Daí a importância de acompanhar, estimular e conduzir, desde a mais tenra idade, o desenvolvimento das três principais vertentes do homem: a do coração (princípio e origem da religião e da fé), a da arte (que reside na base da técnica e do trabalho) e a da mente (onde se cultiva o conhecimento e o saber).

Após a experiência com Pestalozzi Fröbel, entre 1810 e 1816, volta a estudar, desta vez mineralogia (donde tirará alguns princípios que estarão na base das suas teorias pedagógicas) e, mais tarde, se alista com os fuzileiros do exército prussiano contra Napoleão. Em 1816 funda o Instituto Universal Alemão de Educação em Keilhau, que será, em 1921, objecto do ensaio “Princípios, fins e vida interna do Instituto Universal Alemão de Educação em Keilhau”. Em 1826 publica o seu primeiro e mais conhecido livro, A educação do homem, em que transparecem as influência de Pestalozzi, mas também da filosofia idealista de Schelling (1775 – 1854) e do Romantismo alemão de Novalis (1772 – 1802).

Em 1837, depois de um breve estadia em Berlim, Fröbel muda-se para Blankenburg, Thuringia, continuando a trabalhar na educação primária das crianças. Mas será em 1840, juntamente com Wilhelm Middendorf e Heinrich Langethal, que Fröbel se tornará eternamente famoso e consagrado, quando abre, em Blankenburg, em Turíngia, o primeiro Kindergarten, o jardim-de-infância. No Kindergarten organiza as salas de aulas através de uma divisão de materiais e de acções em 2 categorias: “prendas” (gifts) e “tarefas” (occupations). As prendas eram objectos com formas fixas como cubos ou peças de construção. O propósito destes era aprender o conceito subjacente à representação. As ocupações eram mais livres e consistiam em coisas que as crianças podiam moldar e manipular como argila, areia, esferas ou cordas. Tudo o que era feito tinha um significado simbólico subjacente. Até o momento da limpeza e da arrumação era considerado como, segundo as palavras de Fröbel, “um momento final para a criança lembrar os planos de ordem moral e social de Deus”. Assim foi graças a Fröbel que é universalmente aceite a importância de existir um espaço especial e um tempo e umas ferramentas próprias para que as crianças possam brincar e, desta forma, desenvolver as capacidades humanas. A própria denominação de kindergarten remete para uma ideia de criança como planta em crescimento e dos educadores como jardineiros que devem tomar conta deste crescimento.

Fröbel foi o primeiro a compreender a importância dos brinquedos no desenvolvimento cognitivo e motor das crianças. Ele via a infância como um período da vida particularmente fértil e feliz em que as crianças possuem faculdades especiais, que ele chegou a considerar divinas. A educação não tinha que impor modelos existente mas sim proporcionar a possibilidade do indivíduo se libertar e se tornar autónomo na sua forma de existência. Assim estava convencido que os brinquedos existentes (que na altura eram, de forma geral, reproduções em miniatura do universo dos adultos) desencorajavam a descoberta e a criatividade porque era altamente decorados, realísticos e sem uma lógica matemática ou geométrica.

As prendas de Fröbel foram, sem dúvida, as precursoras de muitos dos brinquedos que ainda hoje se constroem. Todo o material didáctico adoptado pelo método Montessori, por exemplo, ou ainda os blocos Anker (acerca dos quais irei falar um dia destes), são claramente criados com base nos princípios do pedagogo alemão. A ideia subjacente tem como base um sistema aberto que permita um grande número de combinações de forma a deixar a criança a liberdade de criar. Entre as prendas existiam esferas coloridas, formas geométricas em madeira, cubos divididos em várias figuras geométricas, além de vários materiais para pintar, furar ou cortar o papel.

Mas o que era mais inovador era a ideia, de raiz claramente romântica, de que a formação da criança era um processo baseado numa descoberta autónoma, sem ter necessariamente que depender de modelos ou paradigmas comportamentais exteriores. O mesmo princípio que esteve subjacente, mais tarde, a muitos cursos propedêuticos no âmbito do ensino das artes como foi, por exemplo, o da Bauhaus.
Os brinquedos eram ferramentas educativas caracterizadas por um baixo nível de pré-combinação mas por um elevado nível de pré-determinação formal e dimensional. Por outras palavras as prendas de Fröbel permitiam, através da sua combinação, construir um número infinito de formas, todas elas de características geométricas rigorosamente controladas e determinadas. Isso permitia à criança desenvolver uma grande capacidade compositiva uma vez que manipulava elementos que possuíam relações dimensionais certas, nas três dimensões. Além disso o estudo das relações dimensionais entre os elementos permitia uma leitura geométrica dos volumes ajudando a aprendizagem da matemática (por exemplo o cubo dividido em oito partes ou o cubo dividido em cubos e prismas).

No dia 21 de Junho de 1852, após breve doença, Friedrich Wilhelm August Fröbel morre.

Etch-A-Sketch, o quadro mágico

Em Portugal chama-se quadro mágico e creio que todos tenhamos brincado com um pelo menos uma vez na vida. Foi inventado por um francês e foi considerado, pela Toy Industry Association, um dos 100 brinquedos do século. É uma espécie de pequeno televisor onde, ao rodar dois manípulos, conseguimos controlar o percurso de uma linha preta sobre um fundo cinzento prata. Digo controlar o percurso porque na realidade não podemos interromper a linha a não ser quando apagamos todo o desenho e recomeçamos desde o início.

Etch A Sketch (este o primeiro nome comercial quando, em 1960, a firma de brinquedos norte-americana Ohio Art Company lançou-o no mercado) funciona com um princípio extremamente simples mas eficaz: a superfície interior do ecrã é coberta com pó de alumínio e partículas de estireno; quando um ponteiro metálico se desloca em contacto com esta superfície traça sulcos pretos no fundo cinzento. A linha desenhada aparece preta porque vê-mos, através dela, a escuridão no interior do brinquedo. Para apagar o desenho e recomeçar é só virar o quadro ao contrário e agitá-lo de forma o alumínio e o estireno voltar a cobrir a superfície interior do ecrã.

O movimento do ponteiro é feito através de um sistema de roldanas e cabos que o guiam ao longo de dois eixos entre eles ortogonais. O ponteiro desloca-se num espaço cartesiano por incrementos X e Y controlados pela rotação dos manípulos, de forma muito igual, por exemplo, ao funcionamento de uma plotter de canetas ou de uma máquina de corte CAM. Parece simples, mas quando tentamos traçar uma linha inclinada ou curva percebemos a dificuldade em controlar o movimento do ponteiro por pequenos incrementos de rotação dos manípulos. Além disso, a linha gerada pelo ponteiro não pode ser ininterrupta obrigando a que os desenhos sejam pensados e preparados com antecedência.

O brinquedo foi inventado por um francês nos finais dos anos 50. O electricista Arthur Granjean desenvolveu um protótipo na sua garagem que chamou L'Ecran Magique e resolveu levá-lo para a feira do brinquedo de Nuremberga em 1959. Foi justamente na feira que H.W. Winzeler, presidente da Ohio Art Company, viu o brinquedo mas, apesar de Arthur Granjean pedir uma ninharia para a sua patente, foi só um ano depois que decidiu fazer uma experiência no mercado norte-americano. Após algumas alterações ao projecto original, entre as quais a passagem de um sistema de joystick para os dois manípulos, em 1960, ao longo das feiras de verão, o Etch A Sketch foi lançado com uma forte campanha publicitária acompanhada de anúncios televisivos. Com a aprovação das revistas Good Housekeeping e Parents, se tornou logo um brinquedo de sucesso. Só a Sears, Roebuck & Co, uma das maiores cadeias de distribuição norte-americanas, vendeu, entre 1960 e 1970, 10 milhões de Etch-A-Sketch.

Em 1986 foi produzida uma versão digital do Etch A Sketch, o Etch A Sketch Animator que foi também objecto de uma forte e bem conseguida campanha publicitária. Com um ecrã de baixa resolução (40x30 píxeis), tinha também os manípulos para desenhar; entre eles haviam oito botões que permitiam fazer várias operações entre as quais colocar as imagens produzidas em sequência de forma a criar uma animação. Além de ser muito caro para a altura (custava cerca de 50$), foi uma grande desilusão uma vez que era extremamente lento e tinha uma resolução de tal forma baixa que as únicas imagens decentes que podiam ser feitas eram as que existiam no livro de instruções.

Em 1988 surgiu o Etch A Sketch Animator 2000 que, sempre com base num sistema de ecrã digital, tinha maior resolução, era acompanhado por uma caneta para escrever e podia funcionar com jogos gravados em cartuchos (Polé-position, golfe, etc...). A produção teve que ser suspensa devido a fraca adesão do público. Em 2001 a produção do Etch A Sketch passou de Ohio para a Shenzhen, China.

Actualmente a Ohio Art Company tem a venda Etch A Sketch em versão software para jogar com computadores, Ipod ou Iphone, mas o modelo original, o de 1960, continua a ser ainda o mais apreciado e vendido. Um brinquedo que não vincula o pensamento (como aconteceu com a sua versão Animator), que não suja, que pode ser levado para qualquer lado(como mostravam os anúncios televisivos da altura) e que, num verdadeiro instante, está novamente pronto para recomeçar. Tanta é a paixão em torno do Etch A Sketch que existe um fan club com mais de 35.000 membros, com idades entre os 2 e os 82 anos, alguns deles verdadeiros artistas.

O site oficial: http://www.etch-a-sketch.com

A verdadeira história da mola Slinky

Na sua versão original, a norte-americana, chama-se Slinky e consiste numa mola helicoidal que enfeitiçou as crianças e os adultos de meio mundo.
A ideia foi de um engenheiro naval chamado Richard James no início dos anos '40 e foi posta a venda em 1945. Richard James não só inventou o brinquedo como a própria máquina que o fabricava quando estava a procura de resolver o problema de um apoio que conseguisse manter estáveis alguns instrumentos náuticos particularmente sensíveis.
Quando uma das molas caiu ao chão Richard percebeu que tinha encontrado "uma aço que podia caminhar". A mulher Betty ficou convencida quando viu o entusiasmo das crianças vizinhas quando brincavam com algumas molas que, entretando, James tinha produzido e distribuído para testar o brinquedo. Foi a própria Betty que batezou a mola de Slinky juntando as palavras sleek e graceful (elegante e graciosa) e transformando-as numa onomatopeia que conseguisse reproduzir o som da mola de aço ao expandir-se e encolher-se.
De facto foi desde logo um sucesso, tanto que os 400 exemplares do primeiro stock foram vendidos em 90 minutos. Com um capital inicial de 500$, James e Betty fundaram as Industrias James em Filadélfia. Em 1952 começou a produção do Slinky Dog (o cão-mola) e de uzie Slinky Worm (minhoca-mola).

Em 1960 Richard James entrou numa profunda crise mística. Deixou a mulher, os seis filhos e a firma para se juntar com uma seta religiosa evangélica na Bolívia onde morreu em 1974.

Sozinha, cheia de dívidas e de filhos, Betty James assumiu a liderança da firma demonstrando uma grande capacidade de gestão. Completou a linha com Slinky Jr. (uma mola de dimensões reduzidas), Plastic Slinky e Slinky Neon (de plástico) e Crazy Eyes Slinky (os óculos com orbitas agarradas a molas) .
Em 1995, Slinky Dog foi um do protagonistas do filme Toy Story, relançando o brinquedo no mercado.
Em 2001 foi lançado no mercado o Slinky Hall of Fame que reunia numa embalagem uma mola Slinky, um Yo-Yo Duncan, uma caixa de pasteis de cera da Crayola e uma pequena bola de Silly Putty (uma gelatina a base de polímeros que altera o seu comportamento mecânico desde o estado fluído, passando pelo elástico, até ao sólido).
Em 2002 Slinky tornou-se o brinquedo oficial do Estado do Pensilvânia e, em 2003, foi nomeado pelo Toy Industry Association's para integrar a listagem dos "brinquedos do século".

O preço original de uma mola Slinky era de 1$ e manteve-se baixo graça ao esforço de Betty James para que as crianças mais pobres pudessem comprá-lo.
Ao longo da sua longa vida (em 60 anos venderam-se 300 milhões de unidades), serviu como ferramentas de ensino nas salas de aulas, como antena para transmissores rádio em tempo de guerra e como experiência com gravidade zero no Space Shuttle da NASA.

Betty James morreu de enfarte em 2008 com a idade de 90 anos.

O site oficial do Slinky: http://www.poof-slinky.com/

Spielwarenmesse International Toy Fair Nürnberg 2010.

Dois dias em Nuremberga.
O primeiro na Feira do brinquedo ...
O segundo dia para um passeio pela cidade
Móveis para casas de bonecas em estilo Bauhaus (1930-35) - Museu de Cultura germânica em Nuremberga (Germanisches Nationalmuseum)
Móveis para casa de bonecas em cartão (1945) da firma Haba de Turinga - Museu de Cultura germânica em Nuremberga (Germanisches Nationalmuseum).
Não faltou, claro, uma visita ao interessantíssimo Spielzeugmuseum (Museu do Brinquedo) onde, infelizmente, não deixam tirar fotografias.

Platão

“Ora pois, havemos de consentir sem mais que as crianças escutem fábulas fabricadas ao acaso por quem calhar, e recolham na sua alma opiniões na sua maior parte contrárias às que, quando crescerem, entendemos que deverão ter? Não consentiremos de maneira nenhuma. Logo, devemos começar por vigiar os autores de fábulas, e seleccionar as que forem boas, e proscrever as más. As que forem escolhidas, persuadiremos as amas e as mães a contá-las às crianças, e a moldar as suas almas por meio das fábulas, com muito mais cuidado do que os corpos com as mãos. Das que agora se contam, a maioria deve rejeitar-se. Quais? Pelas fábulas maiores avaliaremos das mais pequenas. Pois é forçoso que a matriz seja a mesma e que grandes e pequenas tenham o mesmo poder. Ou não achas?”.

PLATÃO. A república. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 1990, p. 87.