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4ª parte – o regresso aos brinquedos

Vamos voltar ao segundo filho de Frank Lloyd Wright, John. Este frequenta a universidade de Wisconsin mas não chega a acabar o curso. Mais tarde frequentará também o Instituto de Arte de Chicago mas as suas verdadeiras habilidades arquitectónicas serão desenvolvidas no escritório do pai em Oak Park. Ficou um arquitecto pouco conhecido tanto pela forte sombra do pai como porque, em 1939, um incêndio destruiu todo o material do arquivo do seu gabinete de arquitectura.

Em 1912 segue o seu irmão mais velho Frank para São Diego, onde ingressa no escritório de Harrison Albright como responsável pelo projecto do Golden West Hotel em San Diego, um dos primeiros edifícios em betão armado. A sua primeira encomenda foi a Wood House (1912) em Escondido, Califórnia, que foi uma clara variação das Prairie House do pai.

Desde 1913 até 1919, John trabalhou com o pai que acompanhou, varias vezes, nas suas viagens ao Japão (a obra do Hotel de Tóquio acabou em 1923). A história não oficial quer que em Tóquio John tenha visto a execução do sistema de fundações anti-sísmicas projectadas pelo pai e tenha ficado impressionado. A história oficial quer que as fundações do Hotel não eram nada de especial tanto é que o grande sismo do Kanto, no dia 1 de Setembro de 1923, destruiu grande partes do edifício, contrariamente ao que tinha sido propagandeado pelo próprio Frank Lloyd Wright. A verdade é que quando John volta para Chicago em 1920, enquanto trabalhava no escritório de Schmidt, Garden & Martin, regista a patente de um projecto no qual estava empenhado desde 1916 e que se tornará um dos brinquedos mais famosos dos EUA: os Lincoln Bricks. Seguiram-se os Lincoln Logs, os Timber Toys, e, finalmente, os Wright Blocks.

Os Lincoln Bricks eram pequenos blocos de madeira que se podiam juntar com cola (fornecida numa pequena bisnaga). Também eram fornecidas pequenas janelas em madeira, portas e outros elementos decorativos para construir pequenos edifícios. Uma vez acabado, querendo, podia-se colocar o modelo em água de forma a dissolver a cola e soltar os blocos para recomeçar. Os Lincoln Brick, apesar de serem um sistema aberto que ainda hoje encontra muitas copias em diferentes materiais, não tiveram o mesmo sucesso de outro sistema também criado por John Lloyd Wright que ainda hoje se encontra em produção, os Lincoln Logs.

Os Lincoln Logs era um sistema de construções em madeira constituído por pequenos toros de secção circular com um encaixe nas extremidades com os quais se podia facilmente construir cabanas, casas, castelos ou outros edifícios. Também os Lincoln Logs eram vendidos com acessórios como janelas, portas ou estruturas para telhados e seguiam o mesmo processo construtivo das casas em madeira típicas das florestas dos EUA chegando a serem divulgados pelo próprio John como sendo o reflexo do "the spirit of America". Foi justamente esta semelhança que permitiu a este brinquedo de se tornar logo num grande sucesso de vendas. Mais tarde, como aconteceu com muitos brinquedos norte-americanos, passada a Segunda Guerra Mundial, as vendas tiveram outro incremento por causa do Bay-boom. O conjunto vinha com as instruções para a construção da Cabana do Tio Tom e da Cabana de Abram Lincoln, tinha caixas de dois tamanhos que eram vendidas por 2 ou 3 dólares cada. Alguém considera os Lincoln Logs copias modificadas de um brinquedo que já se encontrava no mercado desde o 1866, Log Cabin Playhouse de Joel Ellis. Até pode ser verdade uma vez que é provável que John tenha brincado com estas construções equanto criança, por outro lado não se pode negar que os Lincoln Logs foram objecto de um projecto extremamente atento e lançado através de um complexo discurso propagandista de um determinado estilo de vida que lhe garantiram o sucesso.
O conjunto tornou-se extremamente popular porque os pais permitiam que os filhos brincassem com algo que, além de ter um grande poder simbólico no que respeita o nacionalismo norte-americano, representava um ideal de vida que na altura era desejado por muitos: uma cabana ao ar livre para fugir das cada vez mais populadas e poluídas cidades. Neste sentido o sucesso dos Lincoln Logs foi resultado de um brinquedo certo na altura certa. Segundo fontes não oficiais o nome do brinquedo (Lincoln) não é um tributo a Abram Lincoln mas antes a seu pai: Frank Lloyd Wright nasceu como Frank Lincoln Wright mas mudou o seu nome quando da separação dos seus pais. Todavia parece pouco certo uma vez que na própria embalagem original era impresso um retrato de Abram Lincoln (1809-1865) que era, na altura em que o brinquedo era comercializado, uma personagem histórica muito conhecida.
Não sabemos quando mas sabemos que foi por 800$ que John Lloyd Wright vendeu a patente dos Lincoln Logs a Playskool, que actualmente faz parte do grande grupo multinacional Hasbro.

Em 1949 John regista uma versão de construções, que chegará a por a venda em 1950, a qual dará o nome de Wright Blocks. Esta era uma versão actualizada de um sistema de construções que já tinha patenteado em 1933 mas que ainda não tinham sido aperfeiçoados. Os blocos, sempre em madeira, eram de formas rectas e eram vendidos em caixas, chamadas Nº 1 e Nº2, com respectivamente 36 e 70 peças cada uma com ligeiras diferenças nas formas e nas madeiras utilizadas. Alguns conjuntos eram feitos em madeira natural enquanto outros eram pintados com aguarelas. Os Wright Block tinham um desenho mais moderno e abstracto em relação aos Lincoln Logs e, sem fazer referência à tradição, podiam ser utilizados para construir estruturas mais leves e mais abertas. Apesar disso nunca chegara ao sucesso dos seus antecessores e nunca se tornaram num sucesso de vendas encontrando-se, hoje em dia, só na posse de alguns coleccionadores (as imagens dos Wright Blocks são de a uma bisneta de Frances Lloyd Wrigth, mulher de John Lloyd Wright).

Finalmente, em meados de 1950 John desenvolve o protótipo para outro sistema de construções, o Timbre Toy. Este era o mais ambicioso dos seus conjuntos e incluía dezassete formas diferentes com encaixes de forma a servir como elementos para pavimento ou para parede. As peças eram vendidas numa caixa de madeira perfeitamente organizada e com rodas. Como demonstração da versatilidade do sistema Wright construiu e fotografou uma enorme variedade de torres, pontes, casas e até catedrais feitas com os Timbre Toy. Apesar disso nunca chegaram a ser produzidos e comercializados tendo ficado no estado de protótipos.

John Lloyd Wrigth morreu no dia 20 de Dezembro de 1972.

3ª parte - A saga dos Wright

Não vale a pena, aqui e agora, contar a longa, rica e complexa história de Frank Lloyd Wright, até porque não é propriamente isto que interessa. O que interessa é que este grande arquitecto teve uma certa propensão, capacidade e facilidade para mudar de mulher, nem sempre de forma legítima, e de fazer filhos, também nem sempre de forma legítima.

Frank Lloyd Wright casou três vezes: a primeira com Catherine "Kitty" (Tobin) Wright (1871–1959). Socialite e artista empenhada em causas sociais. Casaram em Junho de 1889 e divorciaram em Novembro de 1922. A segunda vez foi com a artista Maude "Miriam" (Noel) Wright (1869–1930). Casaram em Novembro de 1923 e divorciaram em Agosto de 1927. A terceira e última vez casou com a bailarina e escritora Olga Ivanovna "Olgivanna" (Lazovich Milanoff) Lloyd Wright (1897–1985). Casaram em Agosto de 1928 e viveram junto até a morte de Frank, em 1959.

Da relação com Catherine nasceram seis filhos, quatro rapazes e duas raparigas. O grande número de filhos e as capacidades de Catherine em educar crianças fizeram que cedo outras famílias do bairro entregassem os próprios filhos aos seus cuidados obrigando, em 1895, Frank a adicionar à casa de Oak Park (casa e escritório) uma sala de jogos de grandes dimensões. A sala estava sempre cheia de brinquedos e de construções e mais tarde, quando ficou concluída a escadaria para a varanda em 1898, as crianças tinham possibilidade de ter acesso ao escritório de arquitectura do pai.

Os 33 anos de casamentos com Catherine permitiram uma certa estabilidade e continuidade na educação dos seis filhos; mas também tiveram algumas consequências no que respeitas as inclinações profissionais da família, vejam:

O primogénito, Frank Lloyd Wright Jr. (1890-1978), mais conhecido como Lloyd Wright, foi um arquitecto paisagista que trabalhou na zona de Los Angeles. O seu filho (neto de Frank Lloyd Wright, é actualmente um arquitecto de Malibu, Califórnia, onde projectou várias edifícios públicos e privados.

O segundo filho, John Lloyd Wright (1892-1972), também arquitecto, teve muita obra construída na zona de San Diego, California. A filha de John, Elizabeth Wright Ingraham, é uma arquitecta em Colorado Springs. Elizabeth, por sua vez, é mãe de Christine, uma designer de interiores em Connecticut e de Catherine, professora de arquitectura ao Pratt Institute, em New York e autora de vários livros de arquitectura.

A actriz Anne Baxter (1923-1985), que chegou a ganhar um Óscar ao lado de Tyrone Power em 1946 como actriz principal no filme “O fio da navalha”, era neta de Wright. Anne Baxter era a filha de Catherine Baxter, uma filha nascida no primeiro casamento de Wright. A filha de Anne, Melissa Galt (bisneta de Wright), reaproximou-se a arquitectura e actualmente vive e trabalha em Atlanta como design de interiores.

A filha adoptiva Sveltlana (filha de Olgivanna e do arquitecto russo Vladimar Hinzenberg) e o seu filho Daniel morreram num acidente de automóvel em 1946. O seu viúvo era William Wesley Peters (1912-1991). Arquitecto e engenheiro, William trabalhou em vários projectos com Frank Lloyd Wright chegando a ser responsável pelos projectos de estruturas do Museu Guggenheim e dos Laboratórios Johnson Wax, entre outros. William foi, mais tarde, casado por pouco tempo com Svetlana Alliluyeva, a filha de Joseph Stalin . William Peters foi o presidente da Frank Lloyd Wright Foundation desde 1985 até 1991.

Finalmente um bisneto de Wright, S. Lloyd Natof, actualmente vive e trabalha em Chicago como carpinteiro especializado em projecto e produção de móveis por medida em madeira. Uma visita ao site dele não deixa dúvidas acerca das suas origens artísticas.

2ª parte - A Exposição Universal de 1876

No dia 10 de Maio de 1876, abre, em Filadélfia, Pensilvânia, a primeira Exposição Mundial dos EUA, para comemorar o centenário da assinatura da declaração de independência que aconteceu em 1776, também em Filadélfia.

Oficialmente chamada “International Exhibition of Arts, Manufactures and Products of the Soil and Mine”, a exposição era absolutamente gloriosa e contou com nove milhões de visitantes (quando a população dos EUA era de 46 milhões). Foram construídos mais de 200 edifícios novos no interior de um recinto que media mais de quatro quilómetros de comprimento. No interior dos edifícios os visitantes podiam ver enormes máquinas a vapor em funcionamento, animais exóticos e objectos vindos de todo o mundo (participaram 44 países). Juntamente com uma cerebração do poder científico e industrial, um mundo já globalizado mostrava-se e deixava-se tocar no seu esplendor (na feira foram vendidas, pela primeira vez, bananas. Embrulhadas em papel de alumínio, eram consideradas um tratamento exótico). Para ter uma ideia, baste pensar que o edifício principal, uma elegante estrutura em ferro e vidro, tinha 580 metros de cumprimento e cobria uma área de 81.000 metros quadrados.

No recinto da feira tinham sido instaladas, entre as outras, duas exposições que resultaram, no que interessa para a nossa história, extremamente importantes. Mais especificamente dois sistemas educativos que, por razões diferentes, passaram a história.

O primeiro é o que ficou conhecido como sistema russo ou método sequencial era fruto das teorias educativas de Viktor Karlovich Della-Vos (1829-1890). Físico, matemático, engenheiro mecânico, professor de mecânica na Academia Petrovsky (1864), da academia imperial técnica de Moscovo (1867), Della-Vos defendia a importância da inclusão de um treino manual, com aumento progressivo de dificuldade, no ensino. Desta forma, perfeitamente integrado no espírito da época e, sobretudo, da feira de 1876, defendia a forma através da qual a escola deveria preparar os estudantes para a futura era industrial.

O que aconteceu foi que entre os nove milhões de visitantes da feira estavam três pessoas especiais. Uma era Calvin Woodward da Washington University, outra era John D. Runkle, presidente (entre 1879 e 1879) do recentemente aberto MIT (acerca da terceira irei falam mais adiante). Tanto Woodward como Runkle ficaram impressionados com a pedagogia de Della-Vos e, ao voltar para casa, adoptaram os seus perceptos nas respectivas universidades. É possível afirmar que Della-Vos pode ser considerado o compadre do ensino técnico e das artes manuais em todo o mundo.

A outra exibição presente na feira provavelmente não estava muito em sintonia com o sistema russo, mas provocou um conjunto de eventos que, entre outras coisas, deixaram uma profunda marca na historia da arquitectura. Junto ao Pavilhão da Mulher, foi construído um Kindergarten Cottage. Criado pela Froebel Society of Boston no Cottage uma professora treinada, Ruth Burritt, ensinava dezoito crianças do orfanato de Pensilvânia três dias por semana. Burritt explicou os métodos de Fröbel a centenas de visitantes e às crianças que estavam com eles: “uma simples rotina de jardim-de-infância, brincar, cantar, jogos de movimento e manipulação dos brinquedos de Fröbel”. O espectáculo, que era substancialmente um dia passado num jardim de infância com pausa para almoço, estava sempre, sistematicamente, lotado. Mesmo alguns visitantes mais ligados à indústria ou às obras, ficavam atraídos pela suavidade e doçura do espectáculo.

Juntamente com o Kindergarten Cottage havia na feira um stand da Milton Bradley Company. Esta firma produzia e vendia vários brinquedos infantis, material didáctico além de cópias dos conjuntos de prendas de Fröbel. Desta forma não só era explicado o processo do jardim-de-infância e enunciada a teoria subjacente, mas também era possível aos visitantes comprar os brinquedos para experimentar o método Fröbel em casa, com os próprios filhos. Esta combinação, apesar de ter evidentes fins comerciais, apontava para um novo paradigma educativo onde o lugar e o tempo da aprendizagem e do desenvolvimento da criança não se limitam aos infantários ou a escolas mas são também as casas e os tempos livres com a família e com os amigos numa actividade que era simultaneamente lúdica e educativa.

A terceira pessoa que visitou a exposição, e que interessa para a nossa história, chamava-se Anna Lloyd Jones (1838-1923). Era uma educadora de infância casada com William Carey Wright, um professor de música, advogado ocasional e político itinerante. Educadora já experiente, Anna ficou de tal maneira interessada nas demonstrações feitas no Kindergarten Cottage que, quando voltou para Boston, comprou logo um conjunto de prendas de Fröbel. Não sabemos se eram peças originais ou cópias da Milton Bradley, o que sabemos é que o conjunto destinava-se a seu filho Frank que na altura tinha nove anos.

Para quem ainda não tenha percebido, o pequeno Frank, era Frank Lloyd Wright (1867-1959), a criança que se virá a tornar, mais tarde, num dos arquitectos mais famosos e influentes do século XX. Em 1943, na sua autobiografia Wright escreverá que: “fui trabalhar com Adler e Sullivan com os meios, ou com as armas, da educação do Kindergarten de Fröbel que a minha mãe me tinha dado quando era criança. (...) a minha mãe adoptou o ensino de Fröbel de não permitir às crianças o desenho ao vivo das fortuitas aparências da natureza até estes não controlar por completo as formas típicas que as aparências escondem. Na mente das crianças tinham que se manifestar, antes de qualquer outra coisa, os elementos geométricos universais”. O que consta também, mesmo que em jeito de mito, é que a mãe de Frank forrava as paredes do seu quarto com imagens de catedrais e de outros edifícios para ajudar a educação do filho para a Arquitectura.

Se é mito ou verdade não sabemos ao certo, o que sabemos ao certo é que Anna conseguiu criar um grande arquitecto.