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Mint Toy Museum - Singapore

Nos casos que apresentei até agora a Arquitectura conseguiu, de alguma forma, auxiliar e melhorar (ou simplesmente caracterizar) a produção de brinquedos. Esta vez irei falar de um caso contrário em que os brinquedos serviram de pretexto para que fosse produzida uma boa Arquitectura.

Os ingredientes são do melhor: um engenheiro electrotécnico com muito dinheiro e dono de uma das maiores e mais completas colecções de brinquedos do mundo e um gabinete de arquitectura que se farta de ganhar prémios. O resultado é o primeiro, e até agora único, edifício projectado de raiz e de propósito para ser um museu do brinquedo. O engenheiro chama-se Yang Chang Fa, tem 60 anos e possui uma colecção de mais de 100.000 peças vindas de mais de 40 países diferentes e coleccionadas ao longo de 30 anos. O gabinete de arquitectura é o SCDA, dirigido por Chan Soo Khian e sediado em Singapura, e os seus projectos já ganharam várias dezenas de prémios internacionais.

A colecção de Chang, além de ser tão numerosa quanto valiosa, possui várias sub-colecções extremamente completas: brinquedos Dan Dare (uma personagem de ficção científica inglesa dos anos 50), bonecas chinesas “door of hope” (cujo nome é devido às missões cristãs do princípio do século XX na China), uma das maiores colecções de brinquedos do mundo dedicados a Batman, e outra, igualmente grande e completa, dedicada a Disney. Muitas peças são únicas no planeta e é possível encontrar brinquedos de praticamente todos os tipos, idades e valor.

O edifício é também algo notável: num lote de somente 5.5 metros de largura por 27.5 de comprimento (com estas medidas poderia muito bem ter sido um lote na baixa no Porto…), o Mint Museum reconhece-se pela sua fachada integralmente revestida de paneis de vidro, cortados às curvas, atrás dos quais se encontram cinco andares cheios de brinquedos. 
O interior é cautelosamente iluminado através da refracção da luz que atravessa as lâminas de vidro colocadas ortogonalmente à fachada. Esta solução consegue iluminar o interior sem expor os brinquedos à agressividade da luz solar. No interior, um sistema de rampas e um elevador central distribuem os visitadores pelos vários pisos onde os brinquedos se encontram organizados em vitrinas retro-iluminadas. Algumas zonas possuem pé-direito duplo e, em zonas estratégicas, os pisos comunicam visualmente através de pavimentos em vidro. No rés-do-chão do edifício encontra-se um café com restaurante e loja de vinhos cujas decorações estão em sintonia com o restante espaço de exposição. Na cobertura, um grande terraço com vista para a cidade é o palco de frequentes festas e eventos mundanos.

A qualidade do projecto, tanto de um ponto de vista arquitectónico como turístico e cultural, valeu ao Mint Museum um prémio no Cityscape Dubai Architectural Awards na categoria Turismo,Viagens e Transportes, além do Chicago Athenaeum International Architectural Awards

O site do museu: http://www.emint.com/
Para uma visita virtual ao edifício: http://www.singaporevr.com/vrs/MintMuseum/Architecture.html

A colecção de Jackie Britton

Existem muitas colecções de brinquedos de arquitectura mas poucas delas são publicamente conhecidas e tão pouco visíveis. Todavia, quando já se possui algum conhecimento na matéria, torna-se mais fácil encontrar pistas que podem levar, em alguns casos, a descobertas muito interessantes. É justamente isto que me aconteceu outro dia quando encontrei a colecção de brinquedos de Jackie Britton.
Dela sei pouca coisa: é inglesa e sempre adorou edifícios e Arquitectura; em 1993, visitou uma exposição em Londres organizada pelo RIBA (Royal Institute of British Architects) dedicada aos brinquedos de arquitectura e, desde então, é uma coleccionadora muito activa e disciplinada. Só falta dizer que Jackie trabalha num museu onde aprendeu o gosto para o coleccionismo e as rotinas de conservação e de catalogação que lhe estão associadas.

O nome do seu blog não deixa dúvidas: http://architoys.net/blog.
Não deixem de visitar o seu perfil no Flickr em: http://www.flickr.com/photos/25270435@N03/ e o seu site, ainda em construção, em: http://www.architoys.net.

V&A Museum of Childhood em Londres

Para quem goste de brinquedos e esteja a programar uma visita a Londres aconselho agendar uma ida ao V&A Museum of Childhood (Cambridge Heath Road London E2 9PA).
Alguns anos atrás estive no de Sintra, em Fevereiro no de Nuremberga e tenho que dizer que o de Londres é, entre estes, o museu mais interessante e variado. Encontrei alguns brinquedos antigos verdadeiramente fantásticos como caixas originais de construções ANKER ou uma casa de bonecas de 1930 produzida pela Lines Brothers (o maior produtor de brinquedos inglês do século XIX) com linhas modernas que só tinha tido oportunidade de ver em livro. Mas também voltei ao meu passado através de uma excelente selecção de brinquedos da minha geração como pistas de carros, jogos electrónicos (típicos da década de 80) ou ainda uma consola de jogos Atari.

Esta visita, que tinha planeado antes da partida, permitiu aprofundar um pouco o tema dos museus de brinquedos e a coisa resulta ser mais complexa, e por isso interessante, e do que parece. A este propósito encontrei um interessantíssimo artigo que trata, justamente, do problema do enquadramento disciplinar, ou histórico, dado aos brinquedos (Anthony Burton. 1997. Design History and the History of Toys: Definig a Discipline for Bethnal Green Museum of Childhood. Journal of Design History Vol. 10 nº 1). O problema é, mais ou menos, o seguinte: na classificação clássica dos museus (pintura, escultura, artes gráficas, têxteis, produção industrial, etc…) onde ficam os brinquedos? Pois o que não tem categoria é tralha e não merece ser guardado e, tão pouco, conservado e exposto.

O artigo conta muito bem as dificuldades que tiveram os sucessivos directores do Victoria & Albert Museum (do qual o Museum of Childhood faz parte) em encontrar critérios tanto para defender a criação e manutenção da colecção de brinquedos como, e sobretudo, para separar os que mereciam ser expostos dos que nem sequer tinham que ser aceite, mesmo que dados.
O resultado deste esforço está, de facto, à vista. Quem conhece o Museu do Brinquedo de Sintra, por exemplo, não poderá deixar de notar que este, apesar de ter uma colecção, notável mantém o cunho do seu criador, João Arbués Moreira. Também o de Nuremberga, que visitei em Fevereiro, está claramente fechado em torno de uma colecção com evidentes limites cronológicos e geográficos.
O artigo citado tenta esta leitura e reconhece cruzamentos entre a história do brinquedo e a etnografia, a psicologia, a história económica ou a sociologia.
De facto já tivemos oportunidade de ver, nos artigos anteriores, a ligação que existe, por exemplo, entre os avanços da pedagogia e o desenvolvimento dos brinquedos ou ainda entre certos brinquedos e o enquadramento cultural no qual tiveram sucesso. Mas poderíamos também citar os jogos electrónicos e a Guerra Fria, a Barbie e o papel da mulher ns anos 60 nos EUA ou ainda a forma como a produção de brinquedos segue a industria automobilística, a moda ou a música.
Em suma, os brinquedos fazem parte daqueles objectos que se inserem, que contaminam e que são contaminados por uma cultura material que caracteriza um período histórico, um país, uma cidade ou, em última análise, mesmo uma pessoa. Visitar um museu como o de Londres é visitar uma parte de história que nos pertence um pouco a todos e ter a oportunidade de reconstruir um pedaço deste passado comum.

Gosto, então, tentar adivinhar: qual, entre os brinquedos das minhas filhas, mereceria ficar num museu?